Reviews


Familycat reviews all Felt albuns

Os FELT são, e serão sempre, uma das bandas de referência dos meus 17 anos: muitas páginas de cadernos de 11º/12ª ano estão rabiscados com os versos de There’s No Such Thing As Victory e Southern State Tapestry fechou, como um ritual, muitas tardes de tertúlia com amigos.

Formaram-se com o propósito de durar 10 anos, 10 álbuns e 10 singles. Atingido o objectivo, acabaram. A referência fundamental, inclusive na voz, é TOM VERLAINE e os TELEVISION misturados com o puritanismo e introversão quase (?) patológicos de Lawrence.

Crumbling The Antiseptic Beauty (1982) – Álbum estreia combina uma ambiência soturna e um som impressionista com a voz e letras lacónicas de Lawrence criando uma música distante e que resiste à classificação. Evergreen Dazed, o longo instrumental de abertura, dá o mote: um devaneio labiríntico de guitarra que evidencia a formação clássica de Maurice Deebank. O resto respira um aroma nocturno e de desolação. Um disco misterioso e fascinante, na altura como 19 anos depois, completamente alheio a qualquer tempo ou espaço.

The Splendour Of Fear (1983) – Com uma das mais belas capas de vinil de sempre (não recuperada na edição em CD) encerra 6 temas num registo mais acessível que oscila entre o épico (The World Is As Soft As Lace) e uma melancolia (quase) opressiva (The Stagnant Pool). Disco gélido e inerte, quase ambiental nas delicadas peças instrumentais (o bonito A Preacher In New England ou as metamorfoses de Optimist And The Poet). O som cristalino das guitarras corre pelas espiras do vinil como fios de água através das artérias translúcidas de um glaciar (“the stagnant pool / like a drowned coffin”).

The Strange Idols Pattern And Other Short Stories (1984) – Sem concorrência, o melhor álbum de guitarras límpidas da década de 80. Nove temas de pop perfeita com os FELT a abandonarem o som denso e impenetrável dos primeiros trabalhos para assinar uma obra prima. O classicismo continua presente nos instrumentais Sempiternal Darkness e Imprint e no inigualável trabalho de guitarra de Deebank em todos as canções. Ouçam especialmente Crystal Ball, Whirlpool Vision of Shame ou Vasco da Gama. A filosofia de Lawrence numa só frase: “We might as well all stay in our rooms until we die”.O meu álbum favorito dos FELT.

Ignite The Seven Cannons (And Set Sail For The Sun) (1985) - Perseguindo a mesma veia pop do disco anterior mas adornado com a produção luxuriante de Robin Guthrie (COCTEAU TWINS). Embora retire alguma simplicidade às canções não belisca a escrita pop perfeita de Lawrence (excepto, talvez, no barroco dueto Primitive Painters com Liz Frazer: mais um tema dos Twins que outra coisa). Luminoso e elegante, foi o primeiro álbum dos FELT que ouvi e um dos primeiros discos que comprei.

Let The Snakes Crinkle Their Heads To Death (1986) – Um curto álbum instrumental erradamente menosprezado na discografia do grupo. Só pelos três primeiros temas vale a pena comprar este disco. Os restantes são pequenas delicias melódicas. Nazca Plain é um dos meus temas favoritos dos FELT. Um disco irresistível com o passar do tempo.

Forever Breaths The Lonely World (1986) – Um ligeiro recuo relativamente à exuberante produção de “Ignite the Seven Cannons” em busca de alguma simplicidade perdida resulta no mais popular e criticamente aplaudido álbum dos FELT. Momentos de puro brilho e luminosidade como Rain Of Crystal Spires ou September Lady e com Lawrence igual a si mesmo (All The People I Like Are Those That Are Dead) este é o álbum que, houvesse alguma justiça no mundo da música, deveria ter garantido aos FELT um lugar no estrelato pop. Mesmo depois de terminado o último acorde as melodias de Hours Of Darkness Have Changed My Mind (“I like those deep dark thoughts / that leave you stranded way in mid-air / I’d like to do something / that makes somebody somewhere care”) e A Wave Crashed On Rocks não nos abandonam dias a fio.

Poem Of The River (1987) – Em Portugal escreveram-se várias coisas sobre “Poem of The River” que citavam, invariavelmente, Pessoa, Sá Carneiro e Espanca. Poesia frágil e sinuosa na forma de música e que vai desde o romantismo acústico de She Lives By The Castle (“Why do you play those games with me / you foolishly thought i would not join in / I’m not impressed by the life you lead / your innocence will surely make you fail”) até aquele que será sempre para mim, ao lado do fantasmagórico Final Resting of the Ark, o momento máximo da Arte dos FELT: o êxtase encantador e tranquilo de Dark Red Birds.

Pictorial Jackson Review (1988) – Uma progressão inesperada num álbum com dois lados distintos. O primeiro, completamente instrumental e algo atmosférico, é composto por duas faixas (Sending Lady Load e o obscuro The Darkest Ending). Mas é no Lado B que os FELT brilham com oito extraordinárias canções num registo diferente do que tinham feito até ali muito por culpa do irresitivel orgão de Martin Duffy. É impossível fazer destaques mas Bitter End (“You slashed a knife across it / And claimed that it wasn’t mine”), Christopher St, o nocturno Under A Pale Light e o cinismo humorado de Don't Die On My Doorstep (“Don’t die on my doorstep / Can’t you crawl to another town”) estão entre o melhor que Lawrence escreveu.

Train Above The City (1988) – Inesperado e impar na discografia dos FELT, este é um álbum completamente instrumental de Martin Duffy e Gary Ainge no qual Lawrence apenas escolhe os títulos das oito peças e que deve mais ao Jazz e ao Easy Listening que a outra coisa. Cinemático e envolvente é o meu disco perfeito para um dia de chuva ou para o fim de um dia de trabalho (sofá confortável e bebida relaxante a media luz). Surpreendente o à vontade e mestria dos dois instrumentistas. Os fãs ficaram pouco impressionados mas para os que assumirem o risco esta é uma agradável surpresa a descobrir com urgência. Run Chico Run e todo o lado B (Spectral Morning, Teargardens, Book of Swords e o final Seahorses on Broadway) são tão (ou ainda mais) deslumbrantes como qualquer outra coisa que os FELT tenham gravado.

Me And The Monkee On The Moon (1989) – Exibindo algumas das roupagens que os DENIM viriam a assumir (rock e pop menos recomendável dos anos 70) este álbum retem alguns momentos de charme e encanto como I Can’t Make Love To You Anymore, Free ou a primeira parte de New Day Dawning. É óbvio neste som aquilo que Lawrence diria anos depois num dos temas de “Back In Denim”(The Osmonds): “In the seventies i was just a kid / I sucked it in / Now it’s all dripping out”. O pavoroso e interminável solo de guitarra com que termina New Day Dawning é a piscadela de olho cínica de um grupo que nunca seguiu nada mais do que os seus próprios caprichos.