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O Tédio Vencerá, Mr. Lawrence

by João Bonifácio (in Público, suplemento Y 20/2/2004)

Há um ponto exacto em que o diamante, o corpo material mais consistente na natureza, se quebra. Quebra-se apenas, com uma simples pancada. Podíamos estar ali o dia inteiro com uma marreta que não o conseguiríamos partir, mas, se conhecermos o fulcro, um toque ligeiro basta. Mais: a luz branca é constituída por todas as cores - e sabemo-lo: o gelo queima, os haikus demoram anos a ser construídos (sim, construídos). Tudo isto serve para dizer que: tudo é uma outra coisa, tudo na natureza esconde em si o contrário. Escava-se a terra para encontrar água, escava-se a água para encontrar petróleo.

A frágil estátua de gelo e tédio construída por Lawrence a bordo dos Felt funda-se numa intensa fogueira dionisíaca. O rendilhado das guitarras é artesanato que almeja o estatuto da arte. A voz cansada de Lawrence tem o "ennui" dos derrotados à partida, que fervem por dentro e nunca o demonstram, excepto na arte.

E se na pop o que conta é o momento, a razão porque nunca nos cansamos dela deve-se apenas a isto: o tempo não é linear, a areia que escorre na ampulheta cola-se às paredes, a que se escapa entre os dedos na mão crava-se no estômago, emperra a engrenagem. Por isso rejubilem, ó nostálgicos. Exultem, ó crianças desafortunadas, crescidas numa época em que falar de guitarras que fazem coisas inovadoras é conversa de velho, porque o laptop é que é. E aprendam, ó pós-modernos. Juntai-vos, gente que vem por bem, juntai-vos à volta da serena fogueira do senhor Lawrence. Vinde provar do ópio (mal)são de melodias propositadamente discretas: senhoras e senhoras, 21 depois de Lawrence ter decidido "fazer o disco perfeito" - "e acha que não conseguiu?" "Claro que consegui" - o mundo volta a poder possuir a beleza enigmática/sorumbática de mister Lawrence, o homem que queria morrer de tédio. Senhoras e senhores, a mais deliciosa pop chata dos anos 80: os Felt do senhor Lawrence. Reedição total da obra - com a excepção de três discos que só sairão mais tarde: "The Strange Idols Pattern" (83), "Let The Snakes Crinckle..." (86) e "Me and a Monkey..." (89) - e conversa com o enigmático e gentil senhor.

o pó da derrota. Ele falhou redondamente, ele acertou em cheio. Seja como for, hoje um teste empírico (isto é: a pele de galinha do braço que segura a caneta) prova sem margem para dúvidas (desculpa, Brian Wilson, ok?) que "Primitive painters" é, de há 64 horas para cá, a melhor canção pop de todos os tempos (vá, deixem de torcer o nariz), é prazer puro, gigantesco. Ou pelo menos tão grande quanto a alegria de poder falar de um tipo que fazia canções aparentemente desprovidas de tudo o que interessava na pop: nada de cresceres épicos, nada de refrões orelhudos, nada de baixos trepidantes, nada de nada. Uma má voz, letras inteligentíssimas, uma arrogância enorme (salve), elitismo (graças a Deus). E ironia. Muita ironia. Na altura quase ninguém percebeu, hoje ninguém vai perceber, claro.

Ele diz: "Queria fazer um grupo extremamente formal que fosse perfeito e fizesse o disco perfeito". Ele é Lawrence Hayward, que nos idos de 79 ("tinha 18 anos" e "odiava música") formou os Felt com um pequeno objectivo que se mantém até hoje, "ser maior que Dylan". E passa a conversa a dizer: "Falhei". Falhou porquê? Porque "queria que os Felt fossem um grupo para as massas e acabaram por se tornar um grupo de culto", o que o irrita profundamente porque a ideia dele, desde o início, era "tomar o mercado sem fazer compromissos". Ou seja, "derrotar o ponto de vista da quantidade, fazer com que, por uma vez, o que vende fosse de facto bom".

A brincar, a brincar, isto é uma verdadeira obsessão para Lawrence. Diz: "Se alguém quer ser actor, então deve sê-lo em Hollywood, senão não é actor", como se o factor quantidade pudesse dizer da qualidade estética. Mas não se pode dizer que Lawrence seja ingénuo, porque há em tudo isto uma ironia muito grande: a ideia deste tímido guitar-hero (ironia, ironia...) era "tentar abrir a cabeça das pessoas - a minha geração devia ter conseguido isto. Foi um grande, grande falhanço.". Esta aparente amargura consigo mesmo é anterior a esse falhanço, é intrínseca ao derrotista por excelência que é Lawrence. Atentem nisto: "Os Felt foram desde o início uma banda fatalista."E nisto: "A minha canção favorita é "Born to lose" de Johnny Thunders & The Heartbrakers [Thunders era uma das forças motrizes por trás dos New York Dolls]. É uma canção acerca da impossibilidade de se conseguir o que quer por mais que nos esforcemos. E eu esforcei-me e esforçar-me-ei sempre." Mais provas fossem necessárias de que Lawrence fala a sério, atente-se na letra de "The world is as soft as lace" (de "The Splendour Of Fear", de 84): "If i could/ I would change the world (...) my visions are upside/ my plans are blured". Ah, e esta declaração: "Amo Rimbaud. Gostava de ser como ele. Ele escreveu tudo o que tinha a escrever até aos 21 anos e depois foi-se embora. Ele não se importava com o que diziam dele. Eu importo-me. Não queria, mas importo-me".

Começa assim a esboçar-se a personalidade de Lawrence: obsessivo (é um conhecedor profundo das margens da música popular), perfeccionista, truculento, pretensioso, tímido, contraditório, (propositadamente?) solitário, ligeiramente misantropo. Não bebe, não fuma, não toma drogas. "Aos 23 anos ainda não tínhamos namoradas", diz, da banda que liderava (como não gostar dele, caramba?). Truculento a ponto de despedir o primeiro baterista porque ele tinha cabelo comprido, irónico a ponto de passar toda uma entrevista a dizer que falhou para depois dizer: "Ainda acho que tudo o que fiz estava certo e todos os outros estavam errados". E não é que o homem está (quase) certo? Mas já vamos escalpelizar tudo isto.

único e paranóico. Apesar de no início até estarem próximos de contemporâneos como os Echo and the Bunnymen, os The Fall ou os Durutii Column, a verdade é que os Felt eram a mais americana das bandas inglesas: "Lou Reed, Tom Verlaine, esses são os tipos que realmente admirava nessa altura". O que dá alguma razão a Lawrence quando diz: "Éramos diferentes de todas as bandas que existiam à época. Estávamos à frente do nosso tempo". Sim e não, mr. Lawrence.

"Crumbling The Antiseptic Beauty", disco de estreia de 82, até está próximo de alguma música de gabardina cinzenta feita no Reino Unido por esses dias: nota-se nos rendilhados de guitarra, no uso recorrente dos timbalões (marca Joy Division e Echo and The Bunnymen por excelência). É uma estreia seguríssima, pop (?) de guitarras já a fazer a ponte com o outro lado do hemisfério e já a milhas do que se pode chamar rock'n'roll. "Sempre me interessou mais a melodia do que a performance", diz Lawrence. Em que é que "Crumbling..." faz os Felt destacarem-se dos outros projectos? Em dois pormenores: nas guitarras gingonas (que marcariam os Pavement) cujo jogo lúdico os atirava para fora da depressão urbana e na voz de Lawrence (uma obsessão para Stuart Murdoch, dos Belle and Sebastian). Essas marcas manter-se-iam para sempre - com um pormenor: a partir da saída de Maurice Deebank, o outro guitarrista e compositor dos Felt - ganha pendor Martin Duffy (hoje nos Primal Scream), teclista recrutado em 85. É a partir daí, do magnífico "Ignite The Seven Canons" (85) que o que antes era filigrana de guitarras entre o cinzento e o branco sujo se torna num combo pop - mesmo que nunca as melodias sejam óbvias, mesmo que nunca haja um lalala, uma pandeireta, um acelerar de nada, apenas sapiência.

Sapiência, não: artesanato. Quando se pergunta a Lawrence o que é que ele apreciava nos Television, a resposta é óbvia, "the craftsmanship", ou seja, o lado de artesão, de trabalho completo. "Sabia que nunca iria fazer álbuns como Scott Walker" - e lá volta a insegurança: "não sei cantar, sou um não cantor. Aliás, nenhum dos meus cantores favoritos sabia cantar".

Tudo isto junto e as voltinhas do órgão de Martin Duffy ("ele ainda era mais errático que o Maurice Deebank, mas os músicos são todos hedonistas, não são?"), tudo isto junto e as quezílias internas ("não conseguia suportar o comportamento do Maurice: ele bebia, faltava aos ensaios, tomava drogas, e para mim uma banda tinha de ser como um quartel militar") criaram a tensão que faltava ainda a "The Splendour Of Fear" (que mantinha as coordenadas da estreia, mas já ampliava a paleta - e é "talvez o meu disco preferido"): "Ignite..." é uma maravilha, obra-prima da pop simultaneamente lúdica e agreste, pejada de cinismo (é aí que Lawrence canta: "I was second class/ I was a moment that quickly passed") e acrimónia. Lawrence, o higiénico-obsessivo queria o mundo e ficava apenas com o culto.

tédio e génio. Lawrence, diga-se de passagem, não estava sozinho. "Havia mais gente que procurava essa canção perfeita, acessível e inteligente, fazer o disco perfeito e exigente que chegasse às pessoas - quem conseguiu foram os Stone Roses, mas nós e os Go-Betweens estivemos perto". Não deixa de ser curioso ouvir o arrogante (segundo conta a lenda) Lawrence admitir que alguém fez o que ele queria ter feito. Calmamente, o inglês "clean" pergunta: "Não acha que a estreia dos Stone Roses é melhor do que tudo o que nós ou os Go-Betweens fizemos?". A resposta só pode ser uma: "Nem de perto nem de longe." "A sério? Que estranho... Eu acho." "Humildade a esta hora?" "Não, o que acho é que eles fizeram a síntese perfeita de tudo o que tinha sido construído pelo underground dos anos 80".

A verdade é que a partir de 85 os Felt foram outra banda e se tornaram únicos. "Ignite..." tinha a canção mais pop de toda uma carreira (a genialíssima "Primitive painters", a meias com Elizabeth Fraser, dos Cocteau Twins), mas depois, com a saída de Deebank, tudo mudou. Porquê, nunca o saberemos. Talvez a falta de sucesso ("nunca tínhamos dinheiro...), talvez uma questão de imagem: "As bandas preferidas do John Peel [radialista inglês] eram os Cocteau Twins, que até estavam próximos de nós. Mas ele odiava-nos, achava-nos pretensiosos. Passou-nos umas meras duas vezes no programa dele".

Isto não era tudo - por esta altura os Felt eram considerados chatíssimos. Não admira: as canções são lentas, a voz de Lawrence é nasalada. Mas é preciso escavar a aparente superficialidade das canções dos Felt que escondia bem mais que preguiça e ressabiamento. Com uma péssima fama atrás dele, cansado das discussões com Deebank ("era como um casamento [Lawrence nunca se casou], estávamos sempre em zangas constantes. Quando ele arranjou a primeira namorada, em 84, e resolveu casar, não fiz nada para impedir a saída dele. Tinha o Martin Duffy."), Lawrence resolveu tornar os Felt numa verdadeira banda, deu mais espaço a Duffy e manteve-se fiel ao propósito inicial: "Fazer dez álbuns em dez anos e depois desaparecer". Perfeito, não?

"Forever Breathes The Lonely World" (86), o primeiro álbum sem Deebank, ainda apanha os Felt a meio caminho entre a luminosidade complexa de "Ignite.." e a estranheza que se seguiria, mas quando se chega a "Poem of the river" já não estávamos propriamente próximos do que se poderia chamar pop (mesmo que "Silver plane" seja um tema magnífico e tenha feito mais pelos Pavement que toda a marijuana que Steven Malkmus fumou na adolescência). Quem o produz é Mayo Thompson, o motor dos loucos psicadélicos Red Crayola. Ouve-se "Poem of the river" e afiança-se que há toque de Mayo. Mas não. "Bem, nós estávamos um dia na [editora] Creation e o Alan McGee [o mítico dono da editora] entrou e disse: 'A partir de agora toda a gente nesta editora é produzida pelo Mayo Thompson'. Nós dissemos: ok."

"Poem of the river" encontra os Felt mais próximos da América que nunca: é o "Darklands" de Lawrence, que entretanto tinha começado a escavar na "Americana", nas "coisas muito underground". Mas, muito sinceramente, Dylan e Van Zandt assombram o disco por todo o lado - especialmente o Bob de "Blood on the Tracks" parece ser o espírito-guia de canções como a magistral "She lives by the castel" (neste momento a melhor etcetcetc, o leitor já conhece a cantiga). Dedinho de Mayo? "Não, ele foi o pior produtor do mundo", ri-se. "Coitado, era uma óptima pessoa, mas completamente louco. Na altura em que produzimos o disco ele ficou a morar em minha casa. Certo dia acordou a meio da noite e começou a passar-se. Fez as malas e voltou para Londres. Nunca mais o vi". Nada de grave, até porque Lawrence tirou uma importante lição de vida que, esperemos, o leitor siga: "Nunca confie numa velha estrela psicadélica".

De golpe de anca em golpe de anca, "Pictorail Jackson Review" é mais uma obra-prima de minimalismo e estranha beleza. A primeira parte do álbum volta às canções à "Ignite..." (pop indie perfeitas), a segunda atira-se a um cocktail jazz meio negro meio martini, ou seja, martini no escuro. Estava tudo feito? Claro que não. Estavam planeados dez discos, seriam dez discos.

Em 88 ainda sairia "Train Above The City", todo da responsabilidade de Duffy, teclas e jazz e mais martinis. Enigmático, mas a espaços delicioso. Também não foi reeditado. E depois, em 89, o fim: "Me and The Monkey On The Moon", última obra-prima, levando ainda mais longe (e aprofundando o eclectismo) de "Ignite..." e da primeira metade de "Pictorial...". Vá-se lá saber porquê, também não foi reeditado. Cumprindo o plano original, os Felt lançaram dez singles em dez anos - e alguns desses singles não faziam parte dos álbuns de estúdio (uma mania estranha que se perdeu nos anos 80). É exactamente essa colecção de singles que "Stains On a Decade" compila. Ouvida assim, dá uma ideia diferente dos Felt, mais eclécticos e experimentadores, capazes de fazer singles orelhudos e simultaneamente estranhos. Há lá uma versão de Brian Wilson e, em "Space blues", ouve-se "I don't wanna give a damn". Também foi posto à venda um DVD, "A Declaration", que musicalmente é irrepreensível - mas meio manhoso em termos de imagem.

Fim de conversa, pergunta-se ao homem que um dia cantou "I will be the first man in history to die of boredom" (e que depois dos Felt fundou os deliciosos Denim e os Go-Kart Mozart) o que lhe falta. Resposta: "Ser maior que Dylan". Parece perfeito.

FELT
Crumbling The Antiseptic Beauty
7/10
The Splendour Of Fear
8/10
Ignite The Seven Cannons
9/10
Todos Cherry Red; distri MusicActiva
Forever Breathes The Lonely World
7/10
Poem Of The River
8/10
Pictorial Jackson Review
8/10
Stains On a Decade
8/10
Todos Creation; distri MusicActiva