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por Jorge Salluh

FELT - "Forever breathes the lonely word"

A criação e propagação de uma imagem singular são atributos frequentes entre os artistas pop. Na verdade muitos destes vivem de sua imagem projetada e alguns só existem por conta deste reflexo. Alguns abusam das imprecações, outros varam a pista rápida das controvérsias com frequência e a maior parte se utiliza de exuberância (ou exagero) no visual. Sem nada disso Lawrence Hayward de modo peculiar construiu uma imagem e tanto no início da década de 80. Esse cultor obcecado de Television e Tom Verlaine atingiu o estrelato cult por representar a antítese dos seus contemporâneos musicais. Mesmo antes dos Smiths representou uma situação quase puritana sem-alcoól-drogas-glamour, despiu a música de qualquer solenidade e ensimesmado-primitivo-impressionista gravou em um tape-deck em seu quarto algumas canções que o impulsionaram para o sucesso de crítica e um contrato com a Cherry-red records.

Egocêntrico e megalômano Lawrence planejou 10 discos em 10 anos, essa promessa não cumprida de certo não surpreendeu àqueles que acompanhavam sua carreira. Dentro da banda as brigas e mudanças eram constantes o Felt contou com diversos músicos talentosos, mas estes por vezes esqueciam-se que a banda era um projeto apenas de Lawrence.

O EP “Crumbling the Antiseptic Beauty” eclodiu em 1981 causando impacto em um ano onde Echo & the Bunnymen, The Cure , Siouxie entre outros encontravam-se em grande forma. O guitarrista Maurice Deebank e Lawrence interagiam e dialogavam com suas guitarras com desenvoltura só comparável a de Richard Lloyd e Tom Verlaine. Letras longas e vocais concisos, por vezes em estilo “deadpan” remetiam à Lou Reed e Leonard Cohen. Era pouco, Lawrence queria ser Lawrence.

Em 84 “the strange idols pattern and other short stories” surgia como um clássico consciente, sem a pretensa genialidade vazia tão em voga dos dias dos Gallagher e de Manson. Lawrence sabia ter acertado a mão, mas foi apenas no álbum seguinte com produção de Robin Guthrie e participação de Liz Fraser (ambos Cocteau twins) que seu hit na parada Indie chegou. O ego inflado de Lawrence mais uma vez rachou a banda, que sem Deebank e Martin Duffy (teclados) partiria para uma tour desastrosa. Um contrato com a já prestigiada Creation records deu a Lawrence o impulso necessário para prosseguir. Talvez ele desse continuidade ao Felt independente do público, crítica, gravadora ou de músicos. O Felt não era uma banda de oportunidade aproveitando o momento propício, era sim uma concepção estética séria sempre refletida no esmero de suas capas, letras e sobretudo na produção das faixas.

Em 1987 o Felt produziria sua obra prima, “Forever breathes...” , seu segundo disco na Creation que recheado de guitarras dedilhadas e solos curtos, com um jangle peculiar trazia graça ao cenário musical marcado pela decadência das grandes bandas indie e pela ascensão da insossa “anorak scene”. Em “Forever breathes the lonely world” Lawrence alcançava uma maturidade musical ainda inédita no Felt, os laços com Robin Guthrie se estreitariam e com isso influências musicais e novas texturas de guitarra. Mais alguns álbuns e o Felt daria por encerrado seu intento submergindo na história da música pop que felizmente tem memória.