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Felt by Mofo

Reza a lenda que o Felt foi um grupo que teve seus passos friamente calculados pelo seu líder Lawrence (seria ele o Chapolin da música inglesa?). Segundo Lawrence, o grupo lançaria 10 discos durante a década de 80 e sumiria. E assim foi. Eles até tiveram um LP Ignite the Seven Cannons lançado por aqui, e continha a canção "Primitive Painters", com os vocais da diva Liz Fraser, do Cocteau Twins. Lembra da canção? Não? Então leia a matéria…

O Felt é um dos grupos mais peculiares nascidos na Inglaterra dos anos 80. Ele sempre foi comandado por Lawrence Hayward, ou simplesmente Lawrence. E da mesma forma que o The Fall é considerado a banda de Mark E. Smith, e o Durutti Column, é liderado por Vini Reilly, o Felt é, definitivamente, Lawrence. Ele planejou o grupo no final dos anos 70, em Birmingham, segunda maior cidade da Inglaterra.

O primeiro lançamento do Felt é, na verdade, um disco solo de Lawrence, gravado em um estúdio de quatro canais, em seu quarto.

Index, o compacto de estréia, foi lançado em 1979, pela Shangai Records, e continha as músicas “Index” e “Break”. Apenas 500 cópias foram feitas e as 100 primeiras possuíam notas escritas na contra-capa: “Um barulho escapa de uma guitarra; uma distante voz roga por silêncio e uma língua já não mais usada.” Nessa época, Lawrence assinava com Jon Lawrence, mas nos anos seguintes usaria apenas o segundo nome em sua carreira artística.

No ano seguinte, Lawrence resolve formar um grupo de verdade e chama três integrantes: Nick Gilbert (baixo), Tony Race (bateria) e Maurice Deebank (guitarra).

Em 1981, assinam com a minúscula gravadora Cherry Red (tida com a menor de todas as independentes inglesas) e lançam, em julho, um novo compacto, Something Sends Me to Sleep, que traz uma curiosidade: a faixa-título está presente nos dois lados do compacto, em versões diferentes e tendo o baterista Gary Ainge, na versão do lado B. Mas isso não é tudo: uma outra canção, “Red Indians”, aparece, também, nos dois lados do compacto, mas são exatamente iguais.

Já com Gary Ainge efetuado na bateria, lançam o LP The Crumbling the Antiseptic Beauty, no mesmo ano, pela gravadora. O destaque era a guitarra de Deebank. Maurice era um músico com conhecimento clássico e que jamais havia ouvido os discos que influenciaram Lawrence, bandas como Television e outras inglesas. Apesar disso, conseguia produzir fraseados únicos, alternados com seus timbres extremamente peculiares.

A crítica considerou a estréia como uma das obra-primas daquele ano, especialmente pela quase ausência do baixo no som e pelo vocal de Lawrence. Mas, para desespero do líder, o disco não faria sucesso comercial algum. Quando jovem, Lawrence tinha um sonho que alimentava (e alimenta) 10 entre 10 jovens ao montarem um grupo: sucesso, muito sucesso. Sua ambição era ser uma grande estrela, ganhar rios de dinheiro e discos de ouro e platina em sua casa. Não foi bem assim...

Um dos fatores que contribuiu para deixar o Felt na berlinda musical em seu país era a capacidade de promoção da gravadora. A Cherry Red simplesmente não tinha idéia do que fazer com um grupo como o Felt.

Embora o sucesso seja próximo à zero, o grupo lança novos trabalhos nos anos seguintes: os compactos My Face Is On Fire (1982) e Penelope Tree (1983) e outro belo LP (e igualmente ignorado pela massa), The Splendour of Fear, em 1984.

Com uma bela capa, inspirada nas idéias de Andy Warhol, o disco mais uma vez mostrava paisagens delicadas, todas edulcoradas pela guitarra climática de Deebank. Alguns chegaram a comparar a beleza do Felt com outra banda que fazia um pop deslumbrante, mas que curiosamente não emplacava, o Go-Betweens. Há quem afirmasse que o lado feminino desses grupos (apesar de não terem nenhuma garota entre os membros) colaborava para a estranheza: afinal, o que seriam essas duas bandas dentro do universo pop?

O Felt não parou de trabalhar em 1984, lançando mais três compactos - Mexican Bandits, Sunlight Bathed The Golden Glow e My Face Is On Fire e um novo LP - The Strange Idols Pattern and Other Short Stories. O disco flertava com a música espanhola e trazia títulos estranhos como “Vasco da Gama” (o navegador e não o time), “Spanish House”, “Roman Litter” e “Crucifix Heaven”. E, ao final do produtivo ano, o Felt não sabia mais que rumo tomar na carreira.

Após tantos lançamentos e nenhum reconhecimento, o grupo sentiu que era hora de uma mudança, pois não teriam como sobreviver apenas com uma pequena legião de fãs. Eles tentaram assinar com a gravadora Blanco-Y-Negro, que havia lançado discos do Jesus and Mary Chain, já que ela possuía um esquema de distribuição bem mais eficiente, através da gigante Warner. O grupo começou a produzir uma nova demo para encontrarem uma canção com grande apelo comercial, mas fracassaram. E assim fracassou a chance de virarem astros.

Mas 1985 também ficou marcado pelo “maior pequeno sucesso do grupo”. Nesse ano, um trio escocês arrebatava as paradas independentes, com seu som etéreo e com uma vocalista que não tinha similares até então: Cocteau Twins.

Lawrence teve uma brilhante idéia: convidar Robin Guthrie para produzir um novo disco e Liz Fraser para dividirem os vocais em uma das faixas: o resultado foi o LP Ignite the Seven Cannons e o single Primitive Painters.

O desenho da capa ficou por conta da 23 Envelope, a mesma que confeccionava as do grupo escocês. Apesar de Robin ter conseguido “colocar ordem na casa”, dando uma produção mais caprichada, as canções não eram tão boas como antes, fato que o próprio Lawrence reconheceu. Em primeiro lugar, os dois lados do disco eram assimétricos (cinco canções no lado A, contra seis do lado B). A insatisfação de Lawrence aumentou com algumas composições francamente sem inspiração. Mas, no meio de tudo isso, havia “Primitive Painters”, o maior sucesso comercial do grupo. E não se enganem: o disco é bom e, por algum milagre, foi lançado em vinil no Brasil, em 1987, e é encontrável em sebos da vida.

O disco marcou a saída de Deebank do grupo, que há anos vivia às turras com Lawrence. Ele já havia deixado o grupo em vários períodos, mas sempre voltava após os pedidos do vocalista. E após a saída de Deebank que resolver abandonar o Felt novamente, Lawrence se irritou e convidou Martin Duffy para assumir o posto que era de Maurice.

Paralelamente o grupo deixou a Cherry Red e mudou-se para uma outra independente, porém melhor estruturada, a Creation. E lançam em 1986, um disco com apenas 10 temas instrumentais: Let the Snakes Crinkle Their Heads to Death.

Mas o drama continuava, já que a própria gravadora estava mais preocupada em divulgar outros artistas do selo como o próprio Jesus and Mary Chain, do que o Felt. E a história se repetiu: o grupo até que vendia razoavelmente bem para os padrões independentes, mas nem arranhava o grande público.

Ainda que insatisfeitos, lançam mais um disco em 1986, Forever Breathes the Lonely Word e Lawrence pensa seriamente em abandonar tudo.

E a angústia de Lawrence era tão grande que ele pensou em jogar fora as fitas com as novas canções do grupo no Rio Tamisa, já que o Felt não estava indo a lugar algum. Mas, Lawrence resolveu entrar mais uma vez em estúdio e saíram de lá com um novo disco, considerado o melhor por vários fãs: Poem of the River. Produzido por Mayo Thompson, do grupo Red Crayola, o som da banda mostrava-se mais afiado do que antes,

Em 1988, a Creation lança dois novos discos do Felt no curto período de quatro meses: The Pictorial of Jackson Review e Train Above the City. O primeiro disco era inspirado em um conto de Jack Kerouac, chamado Pic. Lawrence conta que finalmente havia achado a maneira ideal para morrer, pulando da ponte do Brooklyn com todas as suas raras edições dos livros do escritor beat norte-americano. Algumas letras mostram o espírito: “eu não me importo mais com o tempo / não tenho mais tempo para o sublime / o subterrâneo nunca irá se levantar / ainda que os tolos tornem-se espertos.” Lawrence sempre cultuou em demasia a dor e o sofrimento, e sua intensidade era uma das grandes marcas da banda.

Já Train Above the City foi pensado como uma trilha sonora, com uma sonoridade jazz e se tornou o trabalho favorito de Lawrence na longa discografia do Felt. Lawrence estava muito influenciado pelos filmes dos anos 60 e 70 filmados em Nova York e sonhou em fazer uma trilha que remetesse àquela época.

Em uma das raras entrevistas que deu na década de 80, Lawrence mostrava-se confuso com a imagem que haviam criado dele no universo pop. “Quando lancei o single Rain Of Crystal Spires, pela Creation, tanto a gravadora e as revistas ficaram dizendo que sou obcecado por sexo e isso é uma besteira grande. Eu não minto em minhas canções, e isso acaba me deixando muito nervoso. Por causa dessa pressão, andei fazendo algumas coisas que me envergonho, como tomar drogas para tentar fugir de tudo isso. Eu achava que o Felt tinha perdido a pouca credibilidade que havíamos angariado e isso me deixou desesperado. Só queria me sentir um pouco feliz.”

Lawrence conta o quanto eles ficavam nervosos quando faziam apresentações em Londres. “Você sabe que há essa rivalidade entre Londres e Birmingham e era impossível para a gente, relaxar em um palco londrino. Nós tivemos uma grande ajuda do The Fall, quando nosso baixista escreveu para Mark E. Smith dizendo que era um grande fã do grupo e que nós estávamos procurando alguém que nos ajudasse a arranjar algumas apresentações. Foi a coisa mais idiota que alguém já escreveu, mas Mark respondeu a carta pedindo uma demo e no final, conseguimos abrir shows deles, no começo de nossa carreira. Nossa vida sempre foi feita de coisas imprevisíveis.”

E para Lawrence a mudança para a Creation foi um outro passo imprevisível, já que imaginavam que teriam mais ajuda do que tinham na Cherry Red, o que não ocorreu. Isso acabou fazendo com que o grupo lançasse apenas mais um single pelo selo Space Blues e que acabassem retornando para a antiga gravadora. Mas já era muito tarde para eles, que depois disso lançaram apenas o disco Me and a Monkey on the Moon e acabaram de vez.

Lawrence afirmava estar certo de que o sucesso só viria depois que tivesse 30 anos e o Felt fosse um nome do passado, o que, de certa forma, foi verdade.

Nos anos 90, todo o catálogo da banda foi relançado em CD e a Cherry Red teve uma idéia um tanto duvidosa: relançar alguns títulos com o pomposo nome Absolute Classic Masterpieces e Absolute Classic Masterpieces II, com dois discos em um CD e com uma capa cinza, totalmente sem graça e que são os títulos mais fáceis de serem encontrados.
O Felt fez seu último show no dia 19 de dezembro de 1989 e nos anos 90, Lawrence formou o grupo Denim, tentando capturar o glam rock que tanto fez sua cabeça quando menino e quando sonhava em ser o maior astro do mundo, misturando o bubblegum ingênuo com sintetizadores e um visual totalmente setentista. Mas a banda acabou não virando nada...

O Felt tem uma grande parcela de fãs no Japão, onde seus discos são lançados com grande capricho gráfico e faixas bônus. Deixo vocês com a letra de “Primitive Painters” e a extensa discografia do grupo. Um abraço e até a próxima coluna.

Primitive Painters

I just wish my life could be as strange as a conspiracy
I hold out but there's no way of being what I want to be
Dragons blow fire angels fly spirits wither in the air
I'm just me I can't deny I'm neither here, there nor anywhere

Oh you should see my trail of disgrace,
it's enough to scare the whole human race
Oh you should see my trail of disgrace,
it's enough to scare the whole human race


I don't care about this life, they say there'll be another one
defeatist attitude I know will you be sorry when I've gone
Primitive painters are ships floating on an empty sea
gathering in galleries were stallions of imagery

Oh you should see my trail of disgrace,
it's enough to scare the whole human race
Oh you should see my trail of disgrace,
it's enough to scare the whole human race

Discografia

Index (compacto, 1979)
Something Sends Me To Sleep (compacto, 1981)
Crumbling the Antiseptic Beauty (1981)
My Face Is On Fire (compacto, 1982)
Penelope Tree (compacto, 1983)
The Splendour of Fear (1984)
Mexican Bandits (compacto, 1984)
Sunlight Bathed The Golden Glow (1984)
The Strange Idols Pattern and Other Short Stories (1984)
My Face Is On Fire (1984)
Ignite the Seven Cannons (1985)
Let the Snakes Crinkle Their Heads to Death (1986)
Rain Of Crystal Spires (compacto, 1986)
Forever Breathes the Lonely Word (1986)
Poem of the River (1987)
The Final Resting (compacto, 1987)
Gold Mine (cassette, 1987)
Pictorial Jackson Review (1988)
Train Above the City (1988)
Space Blues (1988)
Get Out Of Mirror (compacto, 1988)
Me and a Monkey on the Moon (1989)
Absolute Classic Masterpieces* (1992)
Felt Box Set (caixa, 1993)
Absolute Classic Masterpieces II* (1993)

*coletâneas